até que eu tenha respiro
os dias ficam marrons
os dias ficam amarelos
os dias nunca são verdes
até que eu tenha coragem
o vão da costura se abre
a vida dos dedos é murcha
o canto dos copos é mudo
até que eu consiga uma casa
até que eu consiga um carro
até que eu consiga andar de noite ao lado do rio
até que eu consiga levantar
nada se recupera
desesperados os pássaros
querem fugir da minha sombra
Tuesday, December 22, 2015
o império contra-ataca
não esquecerei este dia vinte
nem em vinte e um dias vinte
no mormação que antecede a chuva, ajoelhei no assoalho quente e pedi por minha morte, sangrei por todos os cantos mas nenhuma gota caiu
só as mais salgadas
dei às coxas o castigo milenar e assassino dos servos malcriados
incubando na cabeça um fim e uma enxaqueca
o coração a secar numa peneira
num pano de fazer queijos
nem em vinte e um dias vinte
no mormação que antecede a chuva, ajoelhei no assoalho quente e pedi por minha morte, sangrei por todos os cantos mas nenhuma gota caiu
só as mais salgadas
dei às coxas o castigo milenar e assassino dos servos malcriados
incubando na cabeça um fim e uma enxaqueca
o coração a secar numa peneira
num pano de fazer queijos
ecapskcab
quandoespaçocaemespaçotodasespaçoasespaçofolhasespaçoenteroespaçoqueespaçosobraespaçoentrenós
Sunday, November 9, 2014
encerramento (mel cinza, mel cinzento)
na tarde do dia nove de novembro de dois mil e quatorze
domingo
domingo
nublado
são-paulo-da-não-garoa
percebi que, de fato, não sei escrever porra nenhuma
eu só sei pensar em imagens bonitinhas, em duplinhas de palavras que vão bem juntas
no mais, é sorte é acaso
por isso, estou encerrando as atividades deste blogue
- pela segunda vez em sua história -
que (re)nasceu de um ímpeto muito bonito muito triste e seguiu por algum tempo
dando-me os frutos da espontaneidade, com regras um tanto rígidas para um santuário do erro
(aqui só entram textos que foram originalmente escritos na página de postagem, sem chance de edição posterior, sem lugar pra textos trabalhados, rascunhados, reescritos um milhãozinho de vezes)
talvez essa escolha pelo derrepenteio, pelo supetão,
são-paulo-da-não-garoa
percebi que, de fato, não sei escrever porra nenhuma
eu só sei pensar em imagens bonitinhas, em duplinhas de palavras que vão bem juntas
no mais, é sorte é acaso
por isso, estou encerrando as atividades deste blogue
- pela segunda vez em sua história -
que (re)nasceu de um ímpeto muito bonito muito triste e seguiu por algum tempo
dando-me os frutos da espontaneidade, com regras um tanto rígidas para um santuário do erro
(aqui só entram textos que foram originalmente escritos na página de postagem, sem chance de edição posterior, sem lugar pra textos trabalhados, rascunhados, reescritos um milhãozinho de vezes)
talvez essa escolha pelo derrepenteio, pelo supetão,
seja um escape, entregar ao método a culpa pelos textos ralos, febris, inócuos,
talvez seja a minha vontade de não assumir o que venho anunciar:
não sei escrever
não me prestarei mais a escrever
não adianta escrever
só me adianta escrever
mas não adianta continuar escrevendo
encerro com uma lágrima e meia ainda flutuando na cavidade orbital direita
(a esquerda apenas molhadinha)
e uma dor de perder o que não existe
que nunca foi meu
perdão aos poucos leitores que ainda zumbem por aqui. agradeço à musificação ocasional dos meus dedos, fenômeno que atribuo à atmosfera dos dias. muitas coisas que estão aqui têm o meu carinho. delas, vejam, já se fez página de livro - o que é muito mais do que eu poderia ter sonhado quando recorria a este cursor piscante, especialmente nos dias em que meu peito comprimia-se e, torcido, cuspia fogo e chorava gelo, girando torto e desfigurado em seus grilhões de osso.
até.
não sei escrever
não me prestarei mais a escrever
não adianta escrever
só me adianta escrever
mas não adianta continuar escrevendo
encerro com uma lágrima e meia ainda flutuando na cavidade orbital direita
(a esquerda apenas molhadinha)
e uma dor de perder o que não existe
que nunca foi meu
perdão aos poucos leitores que ainda zumbem por aqui. agradeço à musificação ocasional dos meus dedos, fenômeno que atribuo à atmosfera dos dias. muitas coisas que estão aqui têm o meu carinho. delas, vejam, já se fez página de livro - o que é muito mais do que eu poderia ter sonhado quando recorria a este cursor piscante, especialmente nos dias em que meu peito comprimia-se e, torcido, cuspia fogo e chorava gelo, girando torto e desfigurado em seus grilhões de osso.
até.
Thursday, July 31, 2014
as espécies menores podem bater as asas de setenta a oitenta vezes por segundo
atenção atenção
meu coração pesado
como o último abraço antes do mar
como a cabeça baixa todos os dias
como os braços estivadores
como um cadáver de criança
o piche o piche
dos olhos é vítreo
é nojo é quente é ferro de marcar o gado
é o pulsar do corpo raivoso
do ódio intravenal
o tempo o tempo
o tempo tem seus chicotes
seus própios cães doentes
seus cães malucos e carnívoros
cabeças monstruosíssimas em corpos quase humanos
em corpos nunca humanos
a mesa o copo
o intervalo do pisco
o comprimento da lágrima o rasgo da boca aberta
olhar o sol de dia é querer matar o mundo
meu coração pesado
como o último abraço antes do mar
como a cabeça baixa todos os dias
como os braços estivadores
como um cadáver de criança
o piche o piche
dos olhos é vítreo
é nojo é quente é ferro de marcar o gado
é o pulsar do corpo raivoso
do ódio intravenal
o tempo o tempo
o tempo tem seus chicotes
seus própios cães doentes
seus cães malucos e carnívoros
cabeças monstruosíssimas em corpos quase humanos
em corpos nunca humanos
a mesa o copo
o intervalo do pisco
o comprimento da lágrima o rasgo da boca aberta
olhar o sol de dia é querer matar o mundo
Tuesday, June 3, 2014
obituário
o joão ele morreu de projétil
rodolpho morreu de broncopneumonia aspirativa (vomitava um negócio preto)
cecília morreu com todo o pâncreas e estômago transformados em nada (cancro)
o joão da casa de alvenaria morreu de assassinato
meu avô morreu com a garganta furada e um caninho fino por dentro dela
o careca (cão) morreu acho que de tristeza ou frio, chorava muito todas as noites até que um dia não chorou mais
meu galo morreu de hemorragia interna
o pitico desconfio que morreu de ataque cardíaco (coração de pássaro é doença, inclusive, muitos humanoides padecem deste mal, atenção)
as pessoas (povo, gente) morreram de asfalto e aço
eu morri de peso nas costas
o dia morreu de frio
amor morreu de choro
amor morreu de medo
fogo morreu de sufocamento
rodolpho morreu de broncopneumonia aspirativa (vomitava um negócio preto)
cecília morreu com todo o pâncreas e estômago transformados em nada (cancro)
o joão da casa de alvenaria morreu de assassinato
meu avô morreu com a garganta furada e um caninho fino por dentro dela
o careca (cão) morreu acho que de tristeza ou frio, chorava muito todas as noites até que um dia não chorou mais
meu galo morreu de hemorragia interna
o pitico desconfio que morreu de ataque cardíaco (coração de pássaro é doença, inclusive, muitos humanoides padecem deste mal, atenção)
as pessoas (povo, gente) morreram de asfalto e aço
eu morri de peso nas costas
o dia morreu de frio
amor morreu de choro
amor morreu de medo
fogo morreu de sufocamento
hipotética avançada, carnes
há luas que não visto tantas camisas
não façam poesia
não escrevam linhas não falem dela aos meus ouvidos
não deixem que eu veja
antes que eu morra
arranquem-me os olhos
não façam poesia
não escrevam linhas não falem dela aos meus ouvidos
não deixem que eu veja
antes que eu morra
arranquem-me os olhos
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