Wednesday, October 17, 2012

meu nome (uma lista)

  • adeus, irí
  • queda
  • de sua irí
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Sunday, September 9, 2012

Ábaco

Cinquenta dias servi estes pratos e cinquenta vezes subi as colinas. Cinquenta vincos nos meus tímpanos. Cinquenta os calos nos meus solados. Vendi cinquenta tablados. Cinquenta metros bem engomados. De baldes de sangue e suor, cinquenta. Cinquenta anos me foram roubados. E em cinquenta palavras vos digo que: fui.

Hedionda (ou Odianda)


Naquele dia estava adiantada, fora do costume. Quis matar o tempo de sobra com andança e fui a outro lugar, pra encostar ossos. Grudei os pesos do dia no balcão e pedi um suco complicado. A moça preparadeira também tinha pesos, mas eram de meses. Uns oito. Abateu-se sobre mim uma ternura grande, inflada, quase impessoal, e fiz então inveja do suor que lhe escorria pelas bochechas. Eu também tô grávida! e ganhei um sorriso e atenções em troca da mentira. Saí pelas portas sugando o canudo, sem culpa, anestesiada e importante.

(esse texto é do lemúrias, mas tô com tanta saudade...)

Monday, August 6, 2012

virgulinos (de com por e para Guilherme Zani)

eu vim de lá pra ti entoando fases
costurando passos

sempre em vírgula
sempre em vigília da notícia que não vem

eu vir gu lá pra cá, volitando
e vomitando pausas frequentes
a cara escondida atrás do espelho
a face colada com azulejo

eu vi o fim do escorrega
que dá num jardim de horrores
e estas pausas tão bem feitas
viram gulfos
ouviram laços

eu vim de lá pra cá:
à toa
à tona, meu pulmão inundaço
não!
meu peito de ferro e molhaço
e a âncora no pescoço

a vírgula de cá é boa:
habitual e tatuageira
em verdade, enfim:
as pausas são tropeços
e espaços e soluços
e só grafo essas curvinhas
por faltar-me a cunha do fim

ti cta ct ict ac

sei que a vida leva tempo
e o mesmo tempo leva
embora
que o meu tempo leve logo
antes queu vá
carregada
(escorrida)

Friday, June 29, 2012

pasta

andando em cosmogonia
pisando em silêncio de asas farfalas
aguço os ouvidos pra tua figura
abro espaço
atrás da testa
pra fotografia

num medo ansioso do esquecimento
pretendo cravar neste holograma
as unhas tortas e desesperadas
que ganhei das minhas pernas estáticas

vê: começou de baixo
nas fendas das solas dos meus pisadores
mas logo já me tinha os calcanhares
e fazia duas rótulas duras

o pouco gingado dos meus quadris
já pressentia o empedrecer

o tempo não deu

logo vem o bálsamo
olhinhos
dois globos de riso
par de brilhos de menino
de não poder mais

a cura foi sopro leve
em camadas, faceirinho
- daquela força inesgotável
e calma
que o mar tem ao sol juvenil -
e

falando assim tudo fica menor
nada fica bem posto
e as minhas têmporas grudadas nas quinas das letras

que fazer
 que faço?

você que salvou meu corpo e meu miolo
da estatualização
fique sabendo:
eu, professor,
eu também não nasci pra pedra
e virei nos calcanhares
saí dum buracão

e você
e o senhor
o senhor
senhor seu professor
o senhor, doutor
não nasceu nem pra esse mundo

feito perfume pra minhalma
o senhor mora na sublimação






Thursday, June 14, 2012

xale

quero hoje um chá de novas cores
um tempero surpresa ou
uma porta desaberta

sinto falta do meu colar de conchas

mas acordei e vi
que a cabeça continua no lugar
e todos os meus suspiros são antigos
que já não quero os desabrigos
não luto por contatos e sobretudo
não faço andar as mãos

se me deixarem, fico
paciente, assisto a história passar
dar um saltinho
e se esparramar em parágrafos cada vez mais ágeis

faço desta cadeira minha casa
enrolo um xale puído e gostosinho
das coxas até a testa
pra esconder meu rosto hospitalar

hoje não sei rimar

Saturday, May 5, 2012

linhatriz

depois da voga noturna
- da orgia, do vômito, do medo,
do tempo do segredo -
de pé no solfejo das portas
abaixo a cabeça, obedeço
peço perdão, estendo os braços
ofereço a carne para despedaços

vou soletrando quietinha
o terço, a ave, o pai
choro devagar e doente

meu choro é grosso,
gelado
meu choro é feito melado

é contágio, é vírus
e cheira a amargo

meu rosto é máscara de choro endurecido
de choro velho, de choro velado
choro que escapou que ficou trancado
de choro antigo
com choro empilhado

(término: depois)

Friday, April 13, 2012

??????????

quanto mais boca você abre
mais palhaço tem nas bochechas
mais mentira é o seu enxofre
mais ato é o seu vaivém

Friday, March 23, 2012

desalinho

sentimentos mistos são eu
ao meu espírito cai bem a multivalência
só

Monday, March 12, 2012

caixinhas

os objetos que passam pela calçada
(quatro membros, tronco, cabeça, cores variadas)
cuja humanidade já não é -
abandonou-os -
possuem sombras viventes
e esqueceram-se da função das pernas
só sabem quatrejar

no topo da madrugada
o asfalto ainda quente da fricção das solas cansadas
põem-se em procissão de passinhos curtos
arranjam-se em disparidade
os corpos dispostos em contrafluxo
corpos e corpos apenas
de quase-existência
de poucas metades

Saturday, March 10, 2012

radar ta quebrado

ja nao tem mais a eme o erre
o que eu amo mesmo e o ar a sua volta
essa atmosfera de raios que voce tem
uma capa de cilios compridos quando tapa a boca
e uma imitacao de bolero quando passa ventando

Thursday, March 8, 2012

plaquinha fina de irídio (incompleto)

o fim do mundo é um poema confuso
e se te escrevo agora é de não-aguento-mais
não procuro resposta alguma
não tenho ambição
sou calma como um tronco largo
exposta como o verão que está fazendo hoje

a singeleza é toda de mãos malfeitas
doces
cuidadosas
medrosas
e feinhas

eu não sei dizer se ainda existo
com certeza ainda existimos
principalmente em corpos quânticos
isso é verdade
estamos esquecidos
eu acho é bom,
um papel cansado e sem dobras disponíveis

com certa dificuldade
me equilibro na ponta de um só joelho

não há conexão
esqueço dos sinais certos
a poesia é uma convulsão
um tremor de pernas
um corpo estirado no chão

não a beije, não a resgate, não a tente
e sobretudo
NÃO
MENCIONE
O OXIGÊNIO

(crua, ainda vou cozinhar, é que pifou a caneta no meio da janela)

Tuesday, February 28, 2012

estética revés

não traga os poemas para fora deles
que eles não existem neste mundo

hmmm

esse traço não é da sua mão
não
hmmm

Sunday, February 26, 2012

itálico

quando você anda o seu cabelo vai junto
que graça
se passa um tempinho fora das minhas retinas
já penso, magoada, em abraços de outros braços

fiquei um bocado jogando meu preferido:
olhar, gostar, seguir, cansar

mulheres-serrote (segunda tentativa)

o dorso da sua língua vai pro céu da boca na hora de bater foto
'xis'
j j j j j j de gelo
na hora de falar de:
tempestade
sapatos
ela
eletricidade

trancando tudo pra fora das poeiras
fazendo faxina dentro de caixa de osso

(
e eu
perseguindo os maiores olhos do mundo
de olhar passarinho e trama metálica, feito criança)

você só não tem dentes
você fica é nas ondas
nas listras e estrelas
fingindo de forte
fingindo de ruivo
passando melaço

cé fraco, moleque
cé doce
cê não tem homem ainda
a r i e

cala

Sunday, February 19, 2012

uma bobaginha só

se dor pesasse
- fisicamente, seu bobo -
seria bom abrir buracos no chão
com os pés

dor só pesa quando é líquida

Monday, February 13, 2012

primeira consulta de algumas

a médica disse que perdi 40% do meu cabelo
ela disse que é nervoso e
me falou que eu sou emotiva e eu
peguei ri na cara dela e ela
ficou uma fera que a medicina dela não sabe...

(ainda assim quero meu cabelo de volta. quando para de cair? quando volta a ser meu? melhor curar logo)

Sunday, February 12, 2012

arranquei uma página do diário e colei aqui

excerto de outro lugar:

... e no dia seguinte, pela manhã, meu corpo inteiro picado, mordido, comido, doído. doze, doze injeções de veneno só no meu rosto, um relevo novo...
... fico olhando essas fotos e escolhendo (adivinhando) mentalmente quem vou odiar por próximo, já que eu sei onde pausar os olhos para uma simulação de procura, sua...
... eu tenho um medo constante de esquecer. se eu esquecer que a voz da Daniela ri engrolando os ós, o que é que eu vou fazer? eu não quero esquecer nada, nunca...
... ontem encontrei com o cabelo da Isabela no metrô. mas eu não fui pro metrô ontem, fui? ontem inventei uma história grande, mas ontem eu nem ouvi minha voz...
... esses dias lembrei do meu (nosso) plano antigo (2009) de fazer um campo de girassóis perto da Física. ainda me pergunto se as flores que plantamos no seu quintal morreram sozinhas. você poderia me dizer...
... hoje eu fui pro hospital e ganhei de presente uma pulseirinha, dois chocolates e meio, um tabletinho de chiclete e um filme ruim. quero voltar lá em breve, antes que as aulas comecem, é um lugar muito bonito...
... minha mão direita está dolorida de bater na meia-lua. acho que eu bato muito forte. acho que perdi meu pandeiro...
... engraçado...


Friday, February 10, 2012

jogar joguinhos

minha cabeça ligada no acaso, quero dizer
as transparências rabiscadas em câmera lenta
quis dizer
que ficam se sobrepondo

sou espectadora de todas as cenas que não vi
tenho sólidos de mãos que não toquei

as marcas não foram carimbadas
mas essas talvez sejam de mentira

e os tracejos nos meus braços:
já não são garras felinas
já não são dos mosquitinhos
já não são um acidente

Monday, February 6, 2012

Wednesday, February 1, 2012

ainda não é

ganhei a calçada tranquilamente
com olhar vítreo - e opaco
(um vidro sujo de fumaças)

era noite e
todos me acenavam
ignorando o aviso de ainda não é
porque ainda não era

os cabelo baços grudavam no rosto
agarravam a boca com força
pareciam não querer morrer
(cabelo é matéria morta que o vento excita às vezes
injeta um melado amargo
e ele fica fingindo de vivo)

ainda não é
tem uns minutos

o assobio dos cachorros
o tique taque dos gatos no telhado
(brasilite)
tudo soletra uma profecia:
ainda não é,
porque ainda não era.

Tuesday, January 31, 2012

glub glub

meu corpo é de água,
de água do mar
- proscrito e afogado
cansou de remar

um favor

meu nariz continua no lugar
e o seu apontando o infinito

Friday, January 27, 2012

palito de laranjeira

enfiei meu braço goela abaixo e achei
unhas!

Thursday, January 26, 2012

life update

passei os dias
bebendo cola
grudando as cordas vocais

meus pulsos
costuraram-se
e os joelhos já não funcionam

o pior mesmo são as costas
falência completa
de estarem sozinhas
ausentes de dois braços amigos
de dois braços amantes
que as quebram
e depois remontam em novidade
(um vértice a mais, uma curva esquisita, maluquices!)

das axilas
cócegas
mas só o fantasma

enfim
para abortar os pensamentos:
agulha de tricô nos tímpanos
só que eu errei.

(tirei os olhos pra descansar e descobri que o meu nariz também enxerga)

coleção de bolinhas de tungstênio

meu olho (só o direito) inchou de vez
tem uns bons cinco dias

quem é que vai me curar as costas agora?
não tomo remédio
não faço ginástica
acho até que, com o perdão da groselha,
se o sr. for ver mesmo aqui dentro
não tem nem músculo mais não
tem não

minha caneta inflamou:
cada encostadinha no papel
dói

Sunday, January 22, 2012

espelho d'água inquieta

foi o sol que bateu nos olhos
que mordeu seu coração
foi o Sol que vetou o bom-dia
foi o sol que matou a menina

foi o sol que bateu nos olhos
e apagou sua memória
o sol te afogou na cadeira
o sol que te trouxe a cegueira

esse sol, que bateu nos olhos
que soprou um vento de adeus
é um sol feio de mentirinha
é um sol morto
e não é sol

(você não sabe
mas o seu sono
apagou o Sol)

acorda, acorda, tapa o sol com o travesseiro

Saturday, January 21, 2012

o dia do fim da internet

as moldurinhas vazias
as pesssoinhas vazias
ninguém quis anunciar
nos quadros da escadaria

Wednesday, January 18, 2012

arrumação V

se eu varrer a poeira pra fora e botar ela lá dentro do fundo do saco de lixo não vai fazer ela voltar mais tarde e visitar os meus ombros como sempre? é que eu não sei o que fazer com ela e por isso liguei pra você mas vê se me dá uma dica ou aparece aqui em casa pra me ajudar a passar o aspirador é não sei dá um jeito aí nesse seu moleque ué que é que eu tenho com isso?

arrumação IV

o IIII e o IV são irmãos
não há de corrigi-los ou endireitá-los
me deixa!

(é que eu tou arrumando meu quarto
vai levar tempo)

arrumação IIII

achei uma foto sua
bonita
melhor era não ter tido

arrumação III

que fazer com os livros sem-teto?
seria melhor
empilhá-los?
enfileirá-los?
ou mantê-los livres,
presos ao chão?

arrumação II

os papéis emudeceram!

arrumação

tem um problema em cada gaveta
não passemos nenhum pano
e
vamos passar as chaves

balaustrada

se dou razão aos caminhos do cérebro, vá lá,
mas o que meus olhos pedem é inverso,
da perversidade plena dos amores

estão num romance inesgotável com o asfalto
e meu corpo em contorsão
quer aceitar o convite.

Sunday, January 15, 2012

sobre a convexidade que te falei lá

então
lembra do assunto que falamos naquele dia?
(no sofá da sua casa
os quatro pés no tapete
minha cabeça quase no seu ombro e eu
morrendo pra te tocar
mas te achando tão frágil que melhor não)
daí eu esqueci de te contar uma coisa mesmo
foi, é
não, é que foi esquecimento mesmo, você sabe como minha cabeça funciona
(uma virada de parafuso que chega até o inferno, meu deus!)
daí aquele papo de tábua e tudo mais
não é que eu acabei caindo?
engraçado, é, eu também ri
eu fiquei do meu lado só fazendo penduricalhos
grudando foto
enfeitando, correntinha, blábláblá
sabe?
e daí do outro lado foi um tal de arranhacoçacavatiramadeirarapaforarancarasga
sabe? eu tão ocupadinha em acarinhar os sonhos que nem aí pros barulhos
achei que fosse normal
mas daí que o cavouco lá
foi tanto
mas tanto
mas tanto, sabe?
que nem buraco teve:
eu fiquei é morando
numa convexidade.

flautaria

diante das minhas vistas
subindo pelo jardim
é um milhão de farpas
não largam de amargo ruim

escondo atrás da janela
espero o dia passar
mas as farpas, farpeando,
cortam o sono e o pesar

voando com ventos maus
olhando por cima de mim
um anjo descabeçado
soluça no seu flautim
e não tem pena
não tem raiva
não esboça reação qualquer:

parece que vou sofrer
pirulin lulin lulin

os pingos que caem não chovem
as farpas ainda estão
o anjo fica calado
o vento vira uma unção

os muros gritam sandices
: que sofro é esse?

é uma estaca parada
no meu parado jardim
o tempo parou lá fora
o quarto é um camarim

é um preparo para morrer
é uma oficina de máscaras

esse anjo que sussurra
sussura e incansa de mim:
parece que vou sofrer
pirulin lulin lulin

salminho de ninar

silêncio
essa é a coisa primeira
já se pode começar a cantar

joelhos vão para o chão
e encontram os tacos desencerados
e cada um deles chora sozinho a conformidade:
sempre apenas paralelos

a boca entreaberta escapa a baba
e não fecha

me doem os ossos
antes de qualquer músculo
ou veia
ou corte

arranjei uma boa cama
tenho comida morna
mordisco o que está no meio

uma badalada:
impressão ou desgosto?
apresso-me e finjo uma curvatura que as costas não aguentam
risco as unhas no chão
encontro a frieza da madeira velha
e úmida

tento comer do prato à minha frente
batatas que salguei com chuva
e não engulo porque da angústia etc.

duas badaladas:
não tenho certeza
se ouço os badalos ou se são ecos velhos
que esqueceram de chegar
e, rabiscados,
me alcançam em euforia
e em medo de morrerem sozinhos
desconhecidos

as pulgas sou eu ou eles?
os cães é lá fora ou aqui?
a vida parou ou
meus olhos?
aquela hora do dia em que é preciso abri-los forçosamente
porque da dor
(etc.?)

é uma pena a sua desconhecença
do chão de tábuas com um milhãozinho de frestas
das escadas que rangem
da canela velha
da canela fresca
do jarro com canela na sala
das formigas e

posso ouvir mesmo os sinos:
três badaladas

a vida encurtou
o passo morreu na avenida
acreditei na promessa e morri na convexidade
mas vamos logo com isso que Deus já está chegando

Wednesday, January 4, 2012

Querida Mommy,

ainda não cheguei ao seu nível de cultura e decoração de nomes estrangeiros
mas juro que já sei pintar o ar com os olhos