Sunday, November 9, 2014

encerramento (mel cinza, mel cinzento)

na tarde do dia nove de novembro de dois mil e quatorze
domingo
nublado
são-paulo-da-não-garoa
percebi que, de fato, não sei escrever porra nenhuma
eu só sei pensar em imagens bonitinhas, em duplinhas de palavras que vão bem juntas
no mais, é sorte é acaso

por isso, estou encerrando as atividades deste blogue
- pela segunda vez em sua história -
que (re)nasceu de um ímpeto muito bonito muito triste e seguiu por algum tempo
dando-me os frutos da espontaneidade, com regras um tanto rígidas para um santuário do erro
(aqui só entram textos que foram originalmente escritos na página de postagem, sem chance de edição posterior, sem lugar pra textos trabalhados, rascunhados, reescritos um milhãozinho de vezes)
talvez essa escolha pelo derrepenteio, pelo supetão, 
seja um escape, entregar ao método a culpa pelos textos ralos, febris, inócuos,
talvez seja a minha vontade de não assumir o que venho anunciar:
não sei escrever
não me prestarei mais a escrever
não adianta escrever
só me adianta escrever
mas não adianta continuar escrevendo

encerro com uma lágrima e meia ainda flutuando na cavidade orbital direita
(a esquerda apenas molhadinha)
e uma dor de perder o que não existe
que nunca foi meu

perdão aos poucos leitores que ainda zumbem por aqui. agradeço à musificação ocasional dos meus dedos, fenômeno que atribuo à atmosfera dos dias. muitas coisas que estão aqui têm o meu carinho. delas, vejam, já se fez página de livro - o que é muito mais do que eu poderia ter sonhado quando recorria a este cursor piscante, especialmente nos dias em que meu peito comprimia-se e, torcido, cuspia fogo e chorava gelo, girando torto e desfigurado em seus grilhões de osso.

até.

Thursday, July 31, 2014

as espécies menores podem bater as asas de setenta a oitenta vezes por segundo

atenção atenção
meu coração pesado
como o último abraço antes do mar
como a cabeça baixa todos os dias
como os braços estivadores
como um cadáver de criança

o piche o piche
dos olhos é vítreo
é nojo é quente é ferro de marcar o gado
é o pulsar do corpo raivoso
do ódio intravenal

o tempo o tempo
o tempo tem seus chicotes
seus própios cães doentes
seus cães malucos e carnívoros
cabeças monstruosíssimas em corpos quase humanos
em corpos nunca humanos

a mesa o copo
o intervalo do pisco
o comprimento da lágrima o rasgo da boca aberta

olhar o sol de dia é querer matar o mundo

Tuesday, June 3, 2014

obituário

o joão ele morreu de projétil 
rodolpho morreu de broncopneumonia aspirativa (vomitava um negócio preto)
cecília morreu com todo o pâncreas e estômago transformados em nada (cancro)
o joão da casa de alvenaria morreu de assassinato
meu avô morreu com a garganta furada e um caninho fino por dentro dela
o careca (cão) morreu acho que de tristeza ou frio, chorava muito todas as noites até que um dia não chorou mais
meu galo morreu de hemorragia interna
o pitico desconfio que morreu de ataque cardíaco (coração de pássaro é doença, inclusive, muitos humanoides padecem deste mal, atenção)
as pessoas (povo, gente) morreram de asfalto e aço
eu morri de peso nas costas
o dia morreu de frio
amor morreu de choro
amor morreu de medo
fogo morreu de sufocamento

hipotética avançada, carnes

há luas que não visto tantas camisas
não façam poesia
não escrevam linhas não falem dela aos meus ouvidos
não deixem que eu veja
antes que eu morra
arranquem-me os olhos

Sunday, May 25, 2014

hipotética simples; primeiro volume

fossem todos os nós nas minhas cordas corpóreas
pedregulhos
quanto peso eu não teria ao arrastar as pernas?
fosse fácil a receita
para verter os embrulhos em palavra
quanto sal ainda estaria nadando em mim, a salvo?
fosse a minha língua mais solta
e o meu pensar mais sereno
quantas canções não te teria entoado, louca e breve, tomada de torpor amorísceo?
fossem os ? palavras oblíquas, em determínio,
quão leve seria o peito, o meu?
quero estar livre e aberta e pinçada de medos
e ser-te uma pipa, um tapete que voa
e o fim dos teus dias.

Wednesday, May 7, 2014

O MEU NOME É PROÍBÍDO

O MEU NOME É PROÍBÍDO
EM TODAS AS LÍNGUAS MORTAÍS
E OS BÍCHOS E OS ANÍMAÍS DAS RUAS
TODOS TEMEM O SOM DO MEU NOME

O MEU NOME É ACÍDÍCO
E TEM farpas e espínhos
O MEU NOME É CONFUSÃO DE
CORTÍNA COM CENÁRÍO DENTRO

NÃO TENHO NOME ATÉ ONTEM EU
TERÍA CASO EU FOSSE

EU DE NOMES TENHO MUITOS
E SÃO TODOS ASSASSÍNOS

O MEU NOME É DESCONHECÍDO
QUEM VÊ QUE EXÍSTO NÃO O COMPREENDE
O MEU NOME É PROÍBÍDO

O MEU NOME É SÓ SUSSURO
E DE CARREGAMENTO
TEM A BRÍSA
TEM EM SÍ SEU fím


Tuesday, April 22, 2014

cronia

meu carinho, o tempo é amarelo
o tempo é o sol de hoje, o Sol de sempre
é um astro com vento próprio

dentro de mim há tempo
que me insufla o peito com bicarbonato
de sódio líquido
como sei, você dizendo?
olha, carinho, eu desci por esse peito adentro
via esôfago, laringe abaixo
pra chegar no deserto do meu pulmão esquerdo

lá, adianto, não entre jamais
- se puder -
que o vento é circular a areia é senhora de toda carne e o pior
o mormaço, o bafejo morno do tempo
envenena os teus cabelos e murcha os teus cílios

no centro do meu tempo
giroscópios ambarinos, árvores hepáticas
insuficiência renal
bolor elipsoide


fique fora que é melhor

de modo geral,
meu caro, carinho,
o tempo é todo amarelo
amarela as paredes de casa, as paredes do prédio,
esquenta a água para o chá
e esfria porque eu esqueço ela lá né

é ouríneo, faz casinha de manhã no mês de Julho,
é pudim queimado, é pão quentinho, é ovo aberto,
é olho fechado,
é a sua mão.