Wednesday, January 18, 2012

arrumação II

os papéis emudeceram!

arrumação

tem um problema em cada gaveta
não passemos nenhum pano
e
vamos passar as chaves

balaustrada

se dou razão aos caminhos do cérebro, vá lá,
mas o que meus olhos pedem é inverso,
da perversidade plena dos amores

estão num romance inesgotável com o asfalto
e meu corpo em contorsão
quer aceitar o convite.

Sunday, January 15, 2012

sobre a convexidade que te falei lá

então
lembra do assunto que falamos naquele dia?
(no sofá da sua casa
os quatro pés no tapete
minha cabeça quase no seu ombro e eu
morrendo pra te tocar
mas te achando tão frágil que melhor não)
daí eu esqueci de te contar uma coisa mesmo
foi, é
não, é que foi esquecimento mesmo, você sabe como minha cabeça funciona
(uma virada de parafuso que chega até o inferno, meu deus!)
daí aquele papo de tábua e tudo mais
não é que eu acabei caindo?
engraçado, é, eu também ri
eu fiquei do meu lado só fazendo penduricalhos
grudando foto
enfeitando, correntinha, blábláblá
sabe?
e daí do outro lado foi um tal de arranhacoçacavatiramadeirarapaforarancarasga
sabe? eu tão ocupadinha em acarinhar os sonhos que nem aí pros barulhos
achei que fosse normal
mas daí que o cavouco lá
foi tanto
mas tanto
mas tanto, sabe?
que nem buraco teve:
eu fiquei é morando
numa convexidade.

flautaria

diante das minhas vistas
subindo pelo jardim
é um milhão de farpas
não largam de amargo ruim

escondo atrás da janela
espero o dia passar
mas as farpas, farpeando,
cortam o sono e o pesar

voando com ventos maus
olhando por cima de mim
um anjo descabeçado
soluça no seu flautim
e não tem pena
não tem raiva
não esboça reação qualquer:

parece que vou sofrer
pirulin lulin lulin

os pingos que caem não chovem
as farpas ainda estão
o anjo fica calado
o vento vira uma unção

os muros gritam sandices
: que sofro é esse?

é uma estaca parada
no meu parado jardim
o tempo parou lá fora
o quarto é um camarim

é um preparo para morrer
é uma oficina de máscaras

esse anjo que sussurra
sussura e incansa de mim:
parece que vou sofrer
pirulin lulin lulin

salminho de ninar

silêncio
essa é a coisa primeira
já se pode começar a cantar

joelhos vão para o chão
e encontram os tacos desencerados
e cada um deles chora sozinho a conformidade:
sempre apenas paralelos

a boca entreaberta escapa a baba
e não fecha

me doem os ossos
antes de qualquer músculo
ou veia
ou corte

arranjei uma boa cama
tenho comida morna
mordisco o que está no meio

uma badalada:
impressão ou desgosto?
apresso-me e finjo uma curvatura que as costas não aguentam
risco as unhas no chão
encontro a frieza da madeira velha
e úmida

tento comer do prato à minha frente
batatas que salguei com chuva
e não engulo porque da angústia etc.

duas badaladas:
não tenho certeza
se ouço os badalos ou se são ecos velhos
que esqueceram de chegar
e, rabiscados,
me alcançam em euforia
e em medo de morrerem sozinhos
desconhecidos

as pulgas sou eu ou eles?
os cães é lá fora ou aqui?
a vida parou ou
meus olhos?
aquela hora do dia em que é preciso abri-los forçosamente
porque da dor
(etc.?)

é uma pena a sua desconhecença
do chão de tábuas com um milhãozinho de frestas
das escadas que rangem
da canela velha
da canela fresca
do jarro com canela na sala
das formigas e

posso ouvir mesmo os sinos:
três badaladas

a vida encurtou
o passo morreu na avenida
acreditei na promessa e morri na convexidade
mas vamos logo com isso que Deus já está chegando

Wednesday, January 4, 2012

Querida Mommy,

ainda não cheguei ao seu nível de cultura e decoração de nomes estrangeiros
mas juro que já sei pintar o ar com os olhos