Thursday, June 14, 2012

xale

quero hoje um chá de novas cores
um tempero surpresa ou
uma porta desaberta

sinto falta do meu colar de conchas

mas acordei e vi
que a cabeça continua no lugar
e todos os meus suspiros são antigos
que já não quero os desabrigos
não luto por contatos e sobretudo
não faço andar as mãos

se me deixarem, fico
paciente, assisto a história passar
dar um saltinho
e se esparramar em parágrafos cada vez mais ágeis

faço desta cadeira minha casa
enrolo um xale puído e gostosinho
das coxas até a testa
pra esconder meu rosto hospitalar

hoje não sei rimar

Saturday, May 5, 2012

linhatriz

depois da voga noturna
- da orgia, do vômito, do medo,
do tempo do segredo -
de pé no solfejo das portas
abaixo a cabeça, obedeço
peço perdão, estendo os braços
ofereço a carne para despedaços

vou soletrando quietinha
o terço, a ave, o pai
choro devagar e doente

meu choro é grosso,
gelado
meu choro é feito melado

é contágio, é vírus
e cheira a amargo

meu rosto é máscara de choro endurecido
de choro velho, de choro velado
choro que escapou que ficou trancado
de choro antigo
com choro empilhado

(término: depois)

Friday, April 13, 2012

??????????

quanto mais boca você abre
mais palhaço tem nas bochechas
mais mentira é o seu enxofre
mais ato é o seu vaivém

Friday, March 23, 2012

desalinho

sentimentos mistos são eu
ao meu espírito cai bem a multivalência
só

Monday, March 12, 2012

caixinhas

os objetos que passam pela calçada
(quatro membros, tronco, cabeça, cores variadas)
cuja humanidade já não é -
abandonou-os -
possuem sombras viventes
e esqueceram-se da função das pernas
só sabem quatrejar

no topo da madrugada
o asfalto ainda quente da fricção das solas cansadas
põem-se em procissão de passinhos curtos
arranjam-se em disparidade
os corpos dispostos em contrafluxo
corpos e corpos apenas
de quase-existência
de poucas metades

Saturday, March 10, 2012

radar ta quebrado

ja nao tem mais a eme o erre
o que eu amo mesmo e o ar a sua volta
essa atmosfera de raios que voce tem
uma capa de cilios compridos quando tapa a boca
e uma imitacao de bolero quando passa ventando

Thursday, March 8, 2012

plaquinha fina de irídio (incompleto)

o fim do mundo é um poema confuso
e se te escrevo agora é de não-aguento-mais
não procuro resposta alguma
não tenho ambição
sou calma como um tronco largo
exposta como o verão que está fazendo hoje

a singeleza é toda de mãos malfeitas
doces
cuidadosas
medrosas
e feinhas

eu não sei dizer se ainda existo
com certeza ainda existimos
principalmente em corpos quânticos
isso é verdade
estamos esquecidos
eu acho é bom,
um papel cansado e sem dobras disponíveis

com certa dificuldade
me equilibro na ponta de um só joelho

não há conexão
esqueço dos sinais certos
a poesia é uma convulsão
um tremor de pernas
um corpo estirado no chão

não a beije, não a resgate, não a tente
e sobretudo
NÃO
MENCIONE
O OXIGÊNIO

(crua, ainda vou cozinhar, é que pifou a caneta no meio da janela)