Sunday, May 12, 2013

infant(e)aria

somos dois
- e em par, somos sozinhos -
por detrás do hoje, já não existimos
nos desfizemos
em limalha metálica, magnética
soprei de cá, você daí
e o espalho foi fantástico, admito
mas foi mesmo artificial

daquilo que dois ímpetos confetearam
o tempo, arquiteto, fez rejuntes
e rearranjou as polaridades de:
pedaço
lasca
fragmento
e grão

a massa requentada se apruma
e se abate sobre nós um medo fino
que é névoa mas que destila veneno

o melhor, já concordamos, é olhar o chão
expor a nuca ao vento salgado
ao escuro-penumbra das lombares
- nossas mãos buscam vincos, reforços
meus punhos cerram firme sobre os ossos
que acinturam teu estômago
tua raiz





somos dois
mas os olhos só me dizem unidade
é um disfarce irrequieto pra saudade
é uma bola luminosa
e azul

Saturday, March 2, 2013

tato contato

você vai me perdoar, r
por não pegar sua mão nunca mais que eu peguei mesmo é mesmo né
e como tá a casa?
e quantos cantos ela tem?
tem quadro no quarto?
tem flor amarela?
tem cabide vazio?
tem um colchão a mais?

não é que eu não goste mais
não é que não te acarinho
faço ainda, mas só com os olhos
e desenho seu entorno todinho com meus cílios

sua pele lê a minha
e no tato, contato,
elas se contam historinhas

se você souber o que diz
o sussuro de suspiros, poros,
vou ver tuas costas pro resto da vida.

Wednesday, October 17, 2012

meu nome (uma lista)

  • adeus, irí
  • queda
  • de sua irí
  •  
  •  
  •  
  •  

Sunday, September 9, 2012

Ábaco

Cinquenta dias servi estes pratos e cinquenta vezes subi as colinas. Cinquenta vincos nos meus tímpanos. Cinquenta os calos nos meus solados. Vendi cinquenta tablados. Cinquenta metros bem engomados. De baldes de sangue e suor, cinquenta. Cinquenta anos me foram roubados. E em cinquenta palavras vos digo que: fui.

Hedionda (ou Odianda)


Naquele dia estava adiantada, fora do costume. Quis matar o tempo de sobra com andança e fui a outro lugar, pra encostar ossos. Grudei os pesos do dia no balcão e pedi um suco complicado. A moça preparadeira também tinha pesos, mas eram de meses. Uns oito. Abateu-se sobre mim uma ternura grande, inflada, quase impessoal, e fiz então inveja do suor que lhe escorria pelas bochechas. Eu também tô grávida! e ganhei um sorriso e atenções em troca da mentira. Saí pelas portas sugando o canudo, sem culpa, anestesiada e importante.

(esse texto é do lemúrias, mas tô com tanta saudade...)

Monday, August 6, 2012

virgulinos (de com por e para Guilherme Zani)

eu vim de lá pra ti entoando fases
costurando passos

sempre em vírgula
sempre em vigília da notícia que não vem

eu vir gu lá pra cá, volitando
e vomitando pausas frequentes
a cara escondida atrás do espelho
a face colada com azulejo

eu vi o fim do escorrega
que dá num jardim de horrores
e estas pausas tão bem feitas
viram gulfos
ouviram laços

eu vim de lá pra cá:
à toa
à tona, meu pulmão inundaço
não!
meu peito de ferro e molhaço
e a âncora no pescoço

a vírgula de cá é boa:
habitual e tatuageira
em verdade, enfim:
as pausas são tropeços
e espaços e soluços
e só grafo essas curvinhas
por faltar-me a cunha do fim

ti cta ct ict ac

sei que a vida leva tempo
e o mesmo tempo leva
embora
que o meu tempo leve logo
antes queu vá
carregada
(escorrida)