Thursday, March 13, 2014

acho bem pena

as suas articulações são irreais
são impossíveis
em girações de coruja
e os seus olhos são de tárcio
são nocturnelles vestidas de joia
são furos nos músculos da face
e dentro da sua cabeça
funciona uma oficina fechada

do cabelo de cachos largos a gente pode contar as voltas a olho nu
mas as palpitações escapam toda a investida dos ábacos

te abraço de longe e
te cuido de mentira
(mas de verdade)

Wednesday, March 12, 2014

pasto silêncio

a sirene é um pranto aberto
dentro de todas as palmas cerradas estou
limalheada e resmungando baixinho
dentro das rugas de papel

quem olha para a descida do morro
em breve descasca os cílios
debaixo do ploc ploc dos saltos
- eles rasgam a superfície do asfalto -
e os bebês choram muito e choram alto e choram tanto
que as cabeças baixas das mães ameaçam suicídio
do viaduto para a vida,
feita d'asas
muito diferente das casas que esganam seus pulmões

para calar tudo que ecoa, falo e emendo as horas com palavra
mas é tudo feito rolamento solto
ou um pneu furado 

marquei com você às três e vinte e dois no meio de uma tarde mormácea
no meio do caminho ensaiei mudar de ideia,
infelizmente já não tinha baterias no celular

diante do seu atraso inexplicável
sentei, dando as costas para a entrada do bar
tive medo de revelar o choro e os fantasmas que me habitam

num ínterim, posso subir à mesa e me matar
ou arrancar o coração do chapeiro com oitenta e três facadas cegas

finalmente, você chega
o vento derruba a porta
não quero acordar santa
quero acordar morta

Sunday, February 2, 2014

&

você lembra de um dia em uma sala semivazia e penumbreante, esperávamos os outros meninos, o c. no sofá falando com a namorada e eu e você no outro, desajeitados, retomamos sete anos de buraco. eu me irritava com seu beijo muito vazio de língua tentei te puxar mais pra dentro de mim, bem pra dentro, tudo dentro e até queria que enfiássemos os corpos um no outro até nada sobrar - só que não dava porque a sala era semivazia e o silêncio da madrugada ele - então a minha mão direita por dentro da calça e as suas mãos duas ocupadas comigo bafejei uma vez o seu nome como quem vomita você riu um pouco perguntou o que tinha sido e não tinha sido nada só tinha sido quase e nada ia acontecer além daquela sofreguidão de repente a campainha tocou porque os meninos chegaram eu sentei um pouco enrolei no sofá com vocês falavam de rachura e photoshop eu fingi não sentir meu cheiro e chamei um carro pra ir embora depois só fiquei pensando no quase quase quase e no meu cheiro e em como o seu cabelo é muito macio e tem aneizinhos pra minha mão e na corrida de cento e poucos reais por sua causa. no dia seguinte você quis andar de mãos dadas comigo a gente tomou eu tomei suco de laranja não achei as pilhas que eu queria e levei vocês embora. e ainda você tem a coragem de me olhar com Os Dois Olhos Inteiros e me dizer em reflexo de luzes que um dia, um dia qualquer coisa. eu te odeio genuinamente.

a parte interna das minhas coxas é muito mole

a sua cara é tão linda
ela é feita de pedaço de pão
ela é nuinha todos os dias
élá é féítá dé ćhúvá

ela é tão linda e Bem Feita
quero pisar-lhe as maçãs como uvas vinicolares
e tocar-lhe os sinos como quem carcassonne

eu queria mesmo era
olhar essa cara para sempre
viu
mas dentro em pouco já tenho raiva de você
não dá jeito mesmo
e odeio tudo que tem na sua cara nojenta
a pele suja do seu nariz, sempre suja e esburacada e
o musgo das suas sobrancelhas o canto da sua boca que faz um arco horrível
e os teus dentes despreparados para qualquer sorriso
e o seu lábio superior, que foi toscamente lavrado sobre a pedra cinzenta
da sua cara
tremula e me faz ganas de rasgá-lo
mas à guisa de beijos lentos e lânguidos e lambidas até o fim do seu pescoço

eu amo a sua cara linda, sua cara menina
sua cara sono, sua cara sexo e sua cara comida
eu bebo o choro da sua cara 
e te escuto muito melhor com os olhos

não é que eu não dê importância ao que fala a cara
mas
palavras, você sabe como são
eu sei como são
e te oiço, ouriço, ouço, arisco
mas não arrisco, não

porque sua cara é linda eu sei você sabe
e inclusive amo o que tem no miolo
mas não falamos sobre isso porque é perigoso

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eu comeria a sua cara

acho que quando você morrer eu vou mesmo
 


Sunday, November 10, 2013

feitiçaria

dá-se uma assadeira redonda à massa
e pronto
temos um bolo circular

e se for retangular, cilíndrica,
se tiverformato barato de estrela ou qualquer bobagem,
não importa muito - a massa será escrava


e aqui, numa terra escura e virgem, proliferam as raízes do medo
falar das coisas é dar-lhes forma pronta
dizer que amo essas mãos fará dos teus dedos uma forca


prefiro sangrar

um filete
fino
e disforme

lapa de baixo

estive sob a terna influência dos anjos,
numa dança febril e desmedida
mas agora torno à rua, aos dias quentes que antecedem o choro

torno também ao parapeito de todas as casas insones
a inspecionar se, no rastro de poeira recente, resta um passo
uma pegada ainda morna dos teus pés

é verdade, cinzinha, eu amo os teus pés!
e amo a figura do teu sono! amo o teu sorriso perdido!
mas foi tudo tão lépido e manco...

ausente a tua forma marmórea
pus-me a escolher outro material para esculpir tua face

tão surpresa, eu, por ter falhado em ver mais cedo:
minha carne, minha carne, minha carne tomará teus traços

Tuesday, November 5, 2013

parto normal

uma série de fatores, concatenados

porque o tive entre os braços e
porque o tive entre as pernas e
por ter sentido a sombra de um gozo frio e
porque dormiste em meu ombro direito
e depois no esquerdo e
porque as tuas formas são curvas e
porque tua pele é um abismo e um remédio e um vício e
porque sussurei um segredo impossível e
porque o tive entre os dedos
e porque o tive sob os ossos
e porque ainda o tenho nos olhos, impresso,
um amuleto âmbar.