Friday, September 6, 2013

truque

(as grandes teorias da robótica
e, bem,
as tintas que a gente inventa
são sonho)

de noite, dói-me o meu couro da cabeça
que é uma peneira esticada sobre o osso

não suporto as coisas que crescem,
mesmo as natimortas
mesmo as sobras
quero-as longe do meu rosto
desejo expulsá-las todas numa progressão lenta
estratificada, em capítulos, e em versículos

- e os folículos...-

eu molesto meu corpo com cabo-de -guerra
moendo a superfície da pele
que é o que dá à minha cabeça essa aura de
calor
emanação
emanamento
e uma latência que pulsa a dor baixinha
um plastiquinho
 
eu quero que as coisas tornem em cantiga mas são sons que se tropeçam tudo  que me escapa

Saturday, May 25, 2013

post-it

o concreto
os seus olhos viram vidro
halogênio
os seus cílios tingidinhos
de vermelho
o medo que perpassa sua raiz

escondido
os dedos da sua mão, quebrados
inventados, impossíveis, mentirosos,
ângulos inexistentes

sem faiscar
sem brilhantes, sem beleza e sem rebusque
a figura que te espanta
e te escalavra
é uma imitação de realeza
é um ensaio para imperatriz

violento
o cimento choca-se com sua nuca
e mãos doídas te apresentam absinto
esperando uma resposta
uma palmada

já não sente
se o frio acontece ou é a cabeça
não há pinças que te prendam à certeza
não há marcas
não há sinos
nem há dor

observo
e dentro do meu crânio velho
gruda-se a sua última imagem
secam seu suor com um pedaço de lixa
põem-lhe vestes absurdas
e eu, eletrônica,
observo
eu, milimétrica,
te assisto,
eu, submersa,
te imagino
eu, já distante, já embora,
mando um bilhete à sua memória.




Sunday, May 12, 2013

infant(e)aria

somos dois
- e em par, somos sozinhos -
por detrás do hoje, já não existimos
nos desfizemos
em limalha metálica, magnética
soprei de cá, você daí
e o espalho foi fantástico, admito
mas foi mesmo artificial

daquilo que dois ímpetos confetearam
o tempo, arquiteto, fez rejuntes
e rearranjou as polaridades de:
pedaço
lasca
fragmento
e grão

a massa requentada se apruma
e se abate sobre nós um medo fino
que é névoa mas que destila veneno

o melhor, já concordamos, é olhar o chão
expor a nuca ao vento salgado
ao escuro-penumbra das lombares
- nossas mãos buscam vincos, reforços
meus punhos cerram firme sobre os ossos
que acinturam teu estômago
tua raiz





somos dois
mas os olhos só me dizem unidade
é um disfarce irrequieto pra saudade
é uma bola luminosa
e azul

Saturday, March 2, 2013

tato contato

você vai me perdoar, r
por não pegar sua mão nunca mais que eu peguei mesmo é mesmo né
e como tá a casa?
e quantos cantos ela tem?
tem quadro no quarto?
tem flor amarela?
tem cabide vazio?
tem um colchão a mais?

não é que eu não goste mais
não é que não te acarinho
faço ainda, mas só com os olhos
e desenho seu entorno todinho com meus cílios

sua pele lê a minha
e no tato, contato,
elas se contam historinhas

se você souber o que diz
o sussuro de suspiros, poros,
vou ver tuas costas pro resto da vida.

Wednesday, October 17, 2012

meu nome (uma lista)

  • adeus, irí
  • queda
  • de sua irí
  •  
  •  
  •  
  •  

Sunday, September 9, 2012

Ábaco

Cinquenta dias servi estes pratos e cinquenta vezes subi as colinas. Cinquenta vincos nos meus tímpanos. Cinquenta os calos nos meus solados. Vendi cinquenta tablados. Cinquenta metros bem engomados. De baldes de sangue e suor, cinquenta. Cinquenta anos me foram roubados. E em cinquenta palavras vos digo que: fui.

Hedionda (ou Odianda)


Naquele dia estava adiantada, fora do costume. Quis matar o tempo de sobra com andança e fui a outro lugar, pra encostar ossos. Grudei os pesos do dia no balcão e pedi um suco complicado. A moça preparadeira também tinha pesos, mas eram de meses. Uns oito. Abateu-se sobre mim uma ternura grande, inflada, quase impessoal, e fiz então inveja do suor que lhe escorria pelas bochechas. Eu também tô grávida! e ganhei um sorriso e atenções em troca da mentira. Saí pelas portas sugando o canudo, sem culpa, anestesiada e importante.

(esse texto é do lemúrias, mas tô com tanta saudade...)