Sunday, September 9, 2012

Hedionda (ou Odianda)


Naquele dia estava adiantada, fora do costume. Quis matar o tempo de sobra com andança e fui a outro lugar, pra encostar ossos. Grudei os pesos do dia no balcão e pedi um suco complicado. A moça preparadeira também tinha pesos, mas eram de meses. Uns oito. Abateu-se sobre mim uma ternura grande, inflada, quase impessoal, e fiz então inveja do suor que lhe escorria pelas bochechas. Eu também tô grávida! e ganhei um sorriso e atenções em troca da mentira. Saí pelas portas sugando o canudo, sem culpa, anestesiada e importante.

(esse texto é do lemúrias, mas tô com tanta saudade...)

Monday, August 6, 2012

virgulinos (de com por e para Guilherme Zani)

eu vim de lá pra ti entoando fases
costurando passos

sempre em vírgula
sempre em vigília da notícia que não vem

eu vir gu lá pra cá, volitando
e vomitando pausas frequentes
a cara escondida atrás do espelho
a face colada com azulejo

eu vi o fim do escorrega
que dá num jardim de horrores
e estas pausas tão bem feitas
viram gulfos
ouviram laços

eu vim de lá pra cá:
à toa
à tona, meu pulmão inundaço
não!
meu peito de ferro e molhaço
e a âncora no pescoço

a vírgula de cá é boa:
habitual e tatuageira
em verdade, enfim:
as pausas são tropeços
e espaços e soluços
e só grafo essas curvinhas
por faltar-me a cunha do fim

ti cta ct ict ac

sei que a vida leva tempo
e o mesmo tempo leva
embora
que o meu tempo leve logo
antes queu vá
carregada
(escorrida)

Friday, June 29, 2012

pasta

andando em cosmogonia
pisando em silêncio de asas farfalas
aguço os ouvidos pra tua figura
abro espaço
atrás da testa
pra fotografia

num medo ansioso do esquecimento
pretendo cravar neste holograma
as unhas tortas e desesperadas
que ganhei das minhas pernas estáticas

vê: começou de baixo
nas fendas das solas dos meus pisadores
mas logo já me tinha os calcanhares
e fazia duas rótulas duras

o pouco gingado dos meus quadris
já pressentia o empedrecer

o tempo não deu

logo vem o bálsamo
olhinhos
dois globos de riso
par de brilhos de menino
de não poder mais

a cura foi sopro leve
em camadas, faceirinho
- daquela força inesgotável
e calma
que o mar tem ao sol juvenil -
e

falando assim tudo fica menor
nada fica bem posto
e as minhas têmporas grudadas nas quinas das letras

que fazer
 que faço?

você que salvou meu corpo e meu miolo
da estatualização
fique sabendo:
eu, professor,
eu também não nasci pra pedra
e virei nos calcanhares
saí dum buracão

e você
e o senhor
o senhor
senhor seu professor
o senhor, doutor
não nasceu nem pra esse mundo

feito perfume pra minhalma
o senhor mora na sublimação






Thursday, June 14, 2012

xale

quero hoje um chá de novas cores
um tempero surpresa ou
uma porta desaberta

sinto falta do meu colar de conchas

mas acordei e vi
que a cabeça continua no lugar
e todos os meus suspiros são antigos
que já não quero os desabrigos
não luto por contatos e sobretudo
não faço andar as mãos

se me deixarem, fico
paciente, assisto a história passar
dar um saltinho
e se esparramar em parágrafos cada vez mais ágeis

faço desta cadeira minha casa
enrolo um xale puído e gostosinho
das coxas até a testa
pra esconder meu rosto hospitalar

hoje não sei rimar

Saturday, May 5, 2012

linhatriz

depois da voga noturna
- da orgia, do vômito, do medo,
do tempo do segredo -
de pé no solfejo das portas
abaixo a cabeça, obedeço
peço perdão, estendo os braços
ofereço a carne para despedaços

vou soletrando quietinha
o terço, a ave, o pai
choro devagar e doente

meu choro é grosso,
gelado
meu choro é feito melado

é contágio, é vírus
e cheira a amargo

meu rosto é máscara de choro endurecido
de choro velho, de choro velado
choro que escapou que ficou trancado
de choro antigo
com choro empilhado

(término: depois)

Friday, April 13, 2012

??????????

quanto mais boca você abre
mais palhaço tem nas bochechas
mais mentira é o seu enxofre
mais ato é o seu vaivém