Tuesday, November 5, 2013

parto normal

uma série de fatores, concatenados

porque o tive entre os braços e
porque o tive entre as pernas e
por ter sentido a sombra de um gozo frio e
porque dormiste em meu ombro direito
e depois no esquerdo e
porque as tuas formas são curvas e
porque tua pele é um abismo e um remédio e um vício e
porque sussurei um segredo impossível e
porque o tive entre os dedos
e porque o tive sob os ossos
e porque ainda o tenho nos olhos, impresso,
um amuleto âmbar.

Saturday, October 26, 2013

torneira de sódio

espelho espelho nosso meu espelho minha garrafinha de gênio
eu desejo eu desejo

um calmante novo um sorriso fixo


Tuesday, September 17, 2013

estoque e reposição

as pedras, nascidas poeira, têm no sol/Sol um descanso
uma Hora Extra Dos Homens De Bem
são pedras

no passado, essas pedras foram homens
não sou cientista mas li papéis de acadêmicos
corretíssimos
e diziam poeira é pele
pele eu tenho, oras, e um dia serei pedra (espero que logo pois sabe não suporto piaçava ou mesmo o próprio ato da varredura)

a rigor, já que li Os Papeis
posso dizer que sou este edredom puído e este plástico do computador
- péssima comparação, dirão Os Acadêmicos e Os Cientistas, uma vez que deitaste o corpo exaustivamente sobre os dois
tanto foi que teu corpo mesmo já é As Coisas Ao Redor De Ti -

 o meu corpo está, deste modo, esticado
passado na maquininha de fazer macarrão sei lá o nome daquilo
tem uns rolos, prensa,

isso, pode ser uma prensa editorial

por aqueles rolamentos passou o meu corpo
por horas que fiaram anos
até ser um véu invisível e
riam
incorpóreo
(um tipo de cortininha, com todas as histórias dos homens impressas em sussuros, frente-e-verso, sobre o pano)

a se estender por toda a criação e toda criatura
por todos os computadores das vitrines e as caixas de computadores nos estoques e os ainda-não-computadores desmantelados
e também me pus a deitar por sobre telhados, sóis, alumínios

não gostava de ser os edredons porém já estou

no final da história acabei por repousar mais uma vez sobre sua pele
seria este o único jeito
por isso fiz


Sunday, September 15, 2013

roucando

my head hurts on medicine
on flasks (metal-coated)
my head hurts on things unknown
- ones i've known long enough to disassemble the knowledge -
my head hurts on salty water my head hurts on concealed holes my head
hurts on over grinning faces on overwhelmed hearts it hurts on
saturdays and thursdays alike my head hurts
on grains of sand on the welcome mat of all my neighbours
my head
hurts
on forgotten keys on my unsleepable mattress i
hear herds my ear harvests my????? head hurts yes that
on my sun tattooed skin my head hurts on the frequence of my own voice on the very images it produces at night my heart hurts
no
my head i mean
my head hurts

Friday, September 6, 2013

truque

(as grandes teorias da robótica
e, bem,
as tintas que a gente inventa
são sonho)

de noite, dói-me o meu couro da cabeça
que é uma peneira esticada sobre o osso

não suporto as coisas que crescem,
mesmo as natimortas
mesmo as sobras
quero-as longe do meu rosto
desejo expulsá-las todas numa progressão lenta
estratificada, em capítulos, e em versículos

- e os folículos...-

eu molesto meu corpo com cabo-de -guerra
moendo a superfície da pele
que é o que dá à minha cabeça essa aura de
calor
emanação
emanamento
e uma latência que pulsa a dor baixinha
um plastiquinho
 
eu quero que as coisas tornem em cantiga mas são sons que se tropeçam tudo  que me escapa

Saturday, May 25, 2013

post-it

o concreto
os seus olhos viram vidro
halogênio
os seus cílios tingidinhos
de vermelho
o medo que perpassa sua raiz

escondido
os dedos da sua mão, quebrados
inventados, impossíveis, mentirosos,
ângulos inexistentes

sem faiscar
sem brilhantes, sem beleza e sem rebusque
a figura que te espanta
e te escalavra
é uma imitação de realeza
é um ensaio para imperatriz

violento
o cimento choca-se com sua nuca
e mãos doídas te apresentam absinto
esperando uma resposta
uma palmada

já não sente
se o frio acontece ou é a cabeça
não há pinças que te prendam à certeza
não há marcas
não há sinos
nem há dor

observo
e dentro do meu crânio velho
gruda-se a sua última imagem
secam seu suor com um pedaço de lixa
põem-lhe vestes absurdas
e eu, eletrônica,
observo
eu, milimétrica,
te assisto,
eu, submersa,
te imagino
eu, já distante, já embora,
mando um bilhete à sua memória.




Sunday, May 12, 2013

infant(e)aria

somos dois
- e em par, somos sozinhos -
por detrás do hoje, já não existimos
nos desfizemos
em limalha metálica, magnética
soprei de cá, você daí
e o espalho foi fantástico, admito
mas foi mesmo artificial

daquilo que dois ímpetos confetearam
o tempo, arquiteto, fez rejuntes
e rearranjou as polaridades de:
pedaço
lasca
fragmento
e grão

a massa requentada se apruma
e se abate sobre nós um medo fino
que é névoa mas que destila veneno

o melhor, já concordamos, é olhar o chão
expor a nuca ao vento salgado
ao escuro-penumbra das lombares
- nossas mãos buscam vincos, reforços
meus punhos cerram firme sobre os ossos
que acinturam teu estômago
tua raiz





somos dois
mas os olhos só me dizem unidade
é um disfarce irrequieto pra saudade
é uma bola luminosa
e azul